Exposição internacional / DO MORRO AO MAR / Josemar Blures

 

Fortaleza de Maputo, Moçambique
Período: 17 de dezembro de 2025 a 31 de janeiro de 2026
Artistas: Josemar Blures de Souza Dias (Mar), Radí Conceição (RADIxCAOS)
Performance: Radí Conceição
Artista convidado: Emanoel Saravá
Curadoria: Juci Reis
Co-curadoria: Jorge Dias
 
Josemar Blures de Souza Dias, ou mesmo Mar, como é conhecido, é um artista que traça um percurso de pertencimento e afeto entre o morro e o mar. Nascido e criado no Alto do Coqueirinho, em Salvador, constrói uma poética ancorada nas geografias da periferia e nas cosmologias afro-diaspóricas, compreendendo o corpo como território vivo. Sua prática articula fotografia, instalação, objetos, escrita e a coleta de materiais como poeira, barro, madeira, folhas, cerâmica e papéis, compondo um contra-arquivo visual que busca pertencer nos espaços historicamente marcados pelo apagamento e pela invisibilidade.
 
A exposição apresenta um recorte de sua pesquisa doutoral em Artes Visuais no Programa de Pós-Graduação em Artes Viduais - PPGAV, na Escola de Belas Artes - EBA, da Universidade Federal da Bahia - UFBA. Tendo como Orientadora a Professora Dra. Nanci Santos Novais, Coorientação do  Professor Dr. Edgard Oliva. O trabalho de Pesquisa do artista se demonstra intenso e com amplo desenvolvimento o que colabora para seu amadurecimento artístico e investigativo. Nessa ocasião, esta exposição pode ser compreendida não como resultado conclusivo, mas como processo em curso. As obras entrelaçam uma experiência temporal. As ruínas da história e a reinvenção do presente, Mar opera no entrelugar da memória e da escrevivência, conceito formulado por Conceição Evaristo que convoca narrativas de vida como gesto político de inscrição no mundo. Cada imagem e cada gesto resisti ao esquecimento. 
 
Segundo o artista, o título Do Morro ao Mar nasce de um percurso afetivo e cotidiano da infância, entre os morros do Alto do Coqueirinho e as águas de Itapuã, em uma Salvador dos anos 1980 que já não existe, mas que permanece viva na memória. O barro, matéria central da exposição, assume o caráter de matéria de passagem: não é muro nem fronteira, mas vestígio, trilha e ensinamento — o que resta do movimento entre terra e água. Na obra de Mar, o barro atua como vetor de ancestralidade, transmitido de geração em geração.
 
Do Morro ao Mar ativa a Fortaleza de Maputo como território simbólico ao reunir obras em múltiplos formatos — vídeos, fotogramas, esculturas e instalações — em uma exposição que propõe um gesto afro-atlântico entre Salvador e Maputo. Ao reinscrever sentidos e linguagens da arte contemporânea produzida na Bahia, o projeto ocupa um espaço marcado pelo passado colonial português, cuja arquitetura carrega silenciamentos produzidos ao longo de séculos. As salas expositivas são organizadas por áreas, e o artista compartilha o espaço com a performance de Radí Conceição e a participação do artista convidado Emanoel Saravá. 
 
Nesse contexto, a Fortaleza é acionada como um lugar de gestação de outras narrativas. Como aponta Grada Kilomba, os monumentos históricos operam como dispositivos que autorizam determinadas narrativas enquanto excluem outras, produzindo silenciamentos estruturais. Esse entendimento dialoga com o pensamento de Achille Mbembe, para quem os monumentos coloniais constituem marcas materiais de regimes de dominação racial, cuja permanência no espaço público sustenta continuidades simbólicas do colonialismo.
 
Ao mesmo tempo, como observa a historiadora Julência Munguambe, a Fortaleza de Maputo figura entre os marcos históricos mais significativos de Moçambique, refletindo não apenas a história colonial do país, mas também sua evolução cultural e social ao longo dos séculos. Ocupá-la hoje a partir de práticas artísticas afro-diaspóricas configura, portanto, um gesto de existência. Nesse espaço, os fotogramas do artista Mar, assim como seus gestos e materialidades, operam como tecnologias de re-habitar o espaço, deslocando as forças coloniais e abrindo outros modos de pensar a arte, a memória e o corpo.
 
A exposição conta com recursos de acessibilidade, como poemas em áudio acessados por QR Code, integram a exposição, ampliando a experiência para pessoas com baixa visão e reafirmando o compromisso com o acesso plural à arte e ao pensamento. O uso de tecnologias e a ativação do público fazem da mostra um espaço de encontro, escuta e transformação.
 
Do Morro ao Mar afirma-se, assim, como uma ecologia da memória, na qual ruínas, relações e materialidades continuam a respirar e a se transformar, desafiando o apagamento imposto pela colonialidade. Na travessia afro-atlântica entre Salvador e Maputo, a Fortaleza, e suas marcas de silenciamento histórico, tornar-se um território de resistência — capaz de converter geografias de opressão em espaços de vida, ancestralidade e imaginação política.
 
Agradecimentos:
Realizada no marco dos 50 anos das Relações Diplomáticas entre Brasil e Moçambique, a mostra é fruto da articulação entre a Flotar Plataforma e o Instituto Guimarães Rosa — Embaixada do Brasil em Moçambique.
 
Apoio financeiro: “O projeto tem apoio financeiro do Governo do Estado, através do Fundo de Cultura, Secretaria da Fazenda e Secretaria de Cultura da Bahia”. 
 
Apoio financeiro: A pesquisa doutoral do artista Josemar Blures de Souza Dias tem apoio financeiro de Bolsa de doutoramento financiada pelo CNPq ( Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), Brasil - Governo Federal.